Verdade

abril 13, 2017

Nesses tempos de caça às bruxas não posso deixar de pensar na sabedoria de Drummond que nos alerta para a instabilidade da verdade.

Não faço aqui uma referência à corrupção e a outros crimes, que como tais devem ser apurados e, quando culpados, devidamente punidos pela lei. Falo da precipitação em julgar o outro através da própria ótica, como se a verdade tivesse sido conferida como um título de propriedade pessoal e intransferível.

A verdade tem as suas nuanças, o que torna o julgamento sempre um equívoco, por ser baseado na percepção do julgador, que na maioria das vezes é apenas um espectador dos fatos.

Cada um enxerga o mundo através dos próprios valores, o que por si só torna a verdade relativizada, sendo o justo em uma situação não ser em outra.

Tomo emprestadas as palavras de Drummond, não sem antes refletir nessa capacidade dos poetas de expressarem o pensamento do outro, mesmo quando esse alguém não lhe é conhecido.

Agora o poeta:

VERDADE

A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

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